Um retrato comovente de um mundo paralelo
Num mundo cada vez mais materialista e individualista, há quem procure refúgio e lições de vida num outro mundo, num local onde a realidade parece ter estagnado no tempo, mas onde ainda imperam a grandeza das pessoas.
Este parece ter sido o ponto de partida de uma aventura que culminou num documentário que humaniza a última geração de pastores da Serra da Estrela.
A célebre imagem do pastor da Serra da Estrela ainda está bem presente na mente de cada um de nós, não porque estejam frequentemente ao alcance da visão, mas porque servem de modelos em várias representações dedicadas às tradições serranas. Todavia esta pode ser uma imagem ficcional a curto prazo, apenas patente em registos gráficos.
Precisamente para não deixar morrer uma tradição ancestral e típica da Serra da Estrela, o jovem realizador, Jorge Pelicano, resolveu partir em busca dos últimos pastores do vale de Casais de Folgosinho.
“Ainda há pastores?”, vai ser exibido no Festival de Cinema e Vídeo Ambiente, Cine'Eco 06, em Seia, em escolas, universidades e em FNAC's espalhadas pelo país. Este é um filme que procura manter viva e perpetuar aquilo que o realizador considera “um outro mundo”, muito diferente daquele a que estamos habituados. “A vida de pastor é uma vida extremamente isolada, é uma das mais duras que há e
é muito rotineira, solitária por demais, poucas pessoas sabem como é, na verdade, a vida de um pastor. Todas estas coisas fascinaram-me e motivaram-me a para partir em busca destas histórias. É uma vida escondida, a que a maior parte das pessoas não tem acesso e não faz ideia”, estes foram alguns dos pressupostos que motivaram a realização deste filme, refere Jorge Pelicano.
O documentário começou a ser filmado em 2001, altura em que o repórter de imagem era estudante do IPG, onde deu os primeiros passos na concretização deste projecto. Três meses de intensas filmagens e contacto com os pastores serviram de material para mais de quarenta cassetes. Entretanto, o ingresso na vida profissional fez o documentário recuar um pouco, mas, cinco anos depois, a vontade de concluir este trabalho falou mais alto e as filmagens recomeçaram.
Uma viagem ao passado
A paisagem rugosa e granítica da Serra da Estrela desperta o interesse na maioria das pessoas, sobretudo dos cosmopolitas, como é o caso. “Fiquei fascinado com aquele mundo, com aquele
local, passar lá um fim de semana a filmar com aquelas pessoas é estar num mundo à parte, quando voltámos a casa, vimos com uma espécie de uma terapia de vida, despreocupados, não há problemas naquele vale, é emocionante lidar com aquelas pessoas”, revela o jovem realizador.
O nível de vida que vemos retractado no filme é verdadeiramente aquilo a que podemos chamar de viagem ao passado, como sublinha o repórter de imagem, “estar nos Casais é recuar muitos anos no tempo, pessoas mais jovens como eu não viveram nem conhecem aquele tipo de vida, eu tive essa sorte, ver, por exemplo, como os meus avós viviam antigamente”.
Questionado sobre a essência desta temática, Jorge Pelicano responde que “esta é das últimas oportunidades de ver aquele estilo de vida, ainda em estado puro. O filme vive muito da beleza das pessoas, da beleza das histórias, mais do que a beleza das imagens, aqueles pessoas estão em estado puro e é possível obter delas qualquer coisa que cá fora já não obtemos no convívio com outras pessoas”, e, acrescenta, “são histórias simples, de pessoas simples”.
“Ainda há pastores?” conta a história de Hermínio, um jovem pastor que enfrenta o desafio da solidão e difícil acesso aos prazeres da vida, paralelamente, desdobram-se outras histórias secundárias porque, diz o realizador, “é delicioso conhecer uma pessoa idosa que vive à 20 anos sozinha, no meio do nada, e tem uma energia contagiante, conhecer a vida das únicas duas crianças do vale, são histórias que devem ser contadas”.
Um documentário fértil em emoções
“Emotivo, divertido e inesperado”, é desta forma que o realizador Jorge Pelica
no descreve o documentário que agora apresenta pelo país. É o primeiro trabalho do género, no qual confessa ter cometido muitos erros dada a ingenuidade normal de quem se estreia num registo documental de longa-metragem. “Acho que é um filme bastante equilibrado, há momentos de bastante tensão, mais sentimentais, outros bastante cómicos, só por isso já não é tão linear, nem previsível”, acrescenta.
Tecnicamente, todo o som do filme foi recriado posteriormente, depois de captar e editar as imagens, houve todo um processo de recolha de sons ambiente, como o vento, rios, ovelhas, chocalhos, e depois tratados em pós-produção.
O documentário vive da transparência e de imagens artísticas, onde os contrastes, os pormenores e a qualidade visual interagem com uma história comovente, mas real.
Ainda há pastores? “Já há muito poucos, acho que era importante preservar, permitir que se mantenha, durante mais algum tempo, este símbolo, o pastor da Serra da Estrela”

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