quarta-feira, setembro 13, 2006

A madeira ganha vida na mão do artista

A tradição raiana do forcão e da tourada tem inspirado muitos artistas do Distrito. No Soito, uma típica aldeia do Concelho do Sabugal, o mestre da madeira construiu uma réplica mecanizada de todo o espectáculo tauromáquico.
Na arena reúnem-se os bandarilheiros, o grupo de pessoas que pega no forcão, representa ainda a tourada, o picadeiro e inclusivamente os acidentes prováveis de quem, destemido, enfrenta um touro. Uma representação fiel, acompanhado de uma aula sobre as capeias, tão características desta região raiana. “Aqui há muita gente que faz réplicas do forcão, eu sempre tive vontade de fazer um, mas fazer uma coisa diferente. Foi assim que me lembrei de fazer este mecanizado”, refere José Oliveira, que orgulhosamente nos explica toda a engrenagem montada para dar vida aos bonecos de madeira. Nem o passo double, a música típica que acompanha a tourada, escapa a esta reprodução fiel das tradições tauromáquicas.
“Agora quero terminar de fazer as bancadas e depois fazer também uma cobertura circular para ficar mais autêntica”, sublinha o artista, “até já me ofereceram mil euros para emprestar esta peça para uma feira, só por dois dias, mas não aceitei”, acrescenta com ar triunfante.

Uma arte que nasce do acaso


José Oliveira, que anos atrás, graças aos netos, descobriu a paixão pelo artesanato, fala-nos com entusiasmo do início desta aventura, em jeito de história de embalar os mais novos, recorda-nos esses momentos. “Estava em Lisboa, com os meus netos, e eles pediram-me para lhes comprar um moinho, em vez de lho comprar, fui antes fazer-lhes um. Tentei fazer uma coisa engraçada. Eles gostaram muito”. Foi neste gesto de simplicidade e afecto que, há doze anos atrás, o gosto pela arte e a dedicação pelas construções em madeira aqueceu os dias de quem, já na reforma, procura utilidade.
A idade, já avançada, não é motivo para parar, muito menos para lhe roubar a imaginação e a boa disposição, pelo contrário, a produção artesanal vai preenchendo de cor e fantasia os dias passados ao som das serras.
Todas as obras em exposição resultam de meses de trabalho, não são apenas peças individuais, são antes conjuntos de várias miniaturas, todos eles mecanizados. Cada um deles, em particular, guarda um segredo, transmite uma ideia e perpetua uma recordação.
A viagem pelo museu particular começa na recriação do moinho, toda a actividade desde a ceifa até à moagem da farinha. A roda do moinho gira lá do topo da enorme pirâmide de madeira trabalhada.
O papagaio falador e a galinha dos ovos de ouro saltam à vista pelo lugar de destaque que ocupam. “Esta galinha é a única no mundo capaz de pôr cem ovos por dia. É verdade!”, diz com ar risonho José Oliveira. Ligado o automatismo, comprova-se essa proeza, abre e fecha o bico, bate as asas, levanta-se e senta-se e em cada ciclo coloca um ovo. “Esta galinha até já esteve na inauguração de uma loja e na rádio fizeram uma publicidade dedicada a ela, diziam que havia uma galinha a pôr cem ovos por dia, quem não acreditasse podia comprová-lo indo a um sítio, que era a loja. Foi um sucesso! E muitas pessoas foram lá mesmo ver”, comenta o proprietário desta recriação.
Viajar neste espaço é uma oportunidade para descobrir novas formas e atitudes, ironicamente, somos nós que nos sentimos observados por todas aquelas figurinhas de madeira que de repente ganham vida, luz e cor. É fácil deixarmo-nos envolver por este cenário e voltarmos à infância, quando ainda brincamos nas casinhas de bonecas.

A tradição sob a perspectiva de um observador

A madeira trabalhada é de várias origens, mas o processo é sempre o mesmo, “tenho que cozer a madeira para a destemperar, depois, no momento da concepção, tem que ser novamente temperada e moldada segundo as formas que tenho na minha mente. Claro que dá muito trabalho, mas gosto do que faço”, explica-nos José Oliveira. As roupas dos figurantes são todas elas costuradas pela esposa, coloridas, com diferentes padrões e com um ar caseiro, são um contributo precioso.
Na realidade e no quotidiano de outros tempos o artesão vai procurar inspiração. O fabrico do linho serviu de modelo para uma nova peça de arte, uma espécie de fábrica onde a recolha da matéria-prima até à produção final no tear das peças do enxoval ocupa cada uma das figuras em constante movimento, uma operação mecânica, ao ritmo monótono da produção artesanal.
Se esta é uma actividade exclusivamente feminina, ao lado já se ouvem os ecos de uma oficina de mecânica automóvel, vários figurantes de fato-macaco inspeccionam, pintam, compõem, arranjam e desmancham os carros. Nesta representação nem sequer faltam as bombas de gasolina ‘Mobil’ para abastecer os veículos.
No museu improvisado num espaço da garagem, outras histórias se cruzam com cada escultura em madeira que encontramos. “Já repararam nesta torre de menagem? Cuidado é que o canhão dispara”, brinca José Oliveira ao accionar o maquinismo desta estrutura, altiva e repleta de pormenores, como luzes vermelhas em cada canto da muralha, decorada e trabalhada com requinte.
Uma rampa de lançamento de aviões, um carrinho de bebés, o típico comboio sobre a linha e muitas outras figuras compõe o valioso espólio deste artesão.

Exposição em museu próprio pode estar para breve

Para não nos escapar nenhum pormenor, foi-nos chamada a atenção para um quadro exposto na parede, à saída, onde o mestre recordou com saudade uma magnífica representação de um pastor que guarda as ovelhas dentro de uma cerca, “esta peça foi vendida para o Centro Cultural de Nova Iorque, nos EUA. Já vendi peças para a França, Itália, Espanha e também para a Alemanha, mas agora estas aqui são para guardar, já não devo vender mais nada”, sublinha José Oliveira.
Todas estas personagens fictícias vão viver novas aventuras e laborar num espaço mais amplo. A Câmara Municipal do Sabugal cedeu parte das instalações de uma antiga unidade fabril do Soito, agora votada ao abandono, para que José Oliveira exponha as suas obras de arte a tempo inteiro.
Um local que só tem a ganhar com a vida activa e com a magia destas esculturas de madeira.
A experiência da vida presenteou José Oliveira com um dom inestimável, agora adultos e crianças podem desfrutar de uma arte artesanal que, com a jovialidade e carisma do artista, ganham beleza e graciosidade infinitas.