Por caminhos paralelos ainda há vidas que se cruzam
Tantas vezes penso porque é que caminho sozinha num jardim com centenas de rostos perdidos e vazios de expressão. Piso as folhas do Outono e tenho a percepção de que o tempo parou para aqueles seres, agora, inorgânicos, e no entanto, alheios à vida monótona dos presentes.
Descubro vontades reprimidas em cada rosto, frustrações levadas ao limite em olhares ausentes de vida, resignações pelo alcance do espírito, tão reduzido ao infinito do nada.
Piso a relva fresca, olho as flores em volta, neste jardim, apenas as plantas respiram de felicidade e deixam brilhar a alma.
Tantos rostos. Tantas pessoas. Tantos destinos e tão poucos olhares felizes. Começo a pensar que escolhi o local errado, que não devia estar ali. Que aquele chilrear é uma ameaça à meditação das gentes despidas de emoção. As cores vivas são um atentado contra a filosofia de vida cinzenta de todos eles. Os sons da água e do vento são sombras no passado de quem perdeu a magia dos sentidos.
Mas que mundo este. Que olhares perdidos. Que rostos infelizes. Aqui sinto-me seriamente deprimida, é fácil deixar correr as lágrimas no meu rosto perante um cenário de desolação. Agora percebo como é que num local de seca interior a relva permanece fresca.
Afinal, este é o santuário dos infelizes, das pessoas que depressa perderam a capacidade de sorrir.Pobres seres que não conseguem já distinguir o azul da vida do dia, do negro da depressão nocturna. Todos partilham laços de insignificância comuns, alheios ao mundo, aqui descobrem o local do nada, o espaço do vazio, o tempo da vida perdida.
Atravesso a ponte e corro para ti. És o único rosto capaz de exprimir um sorriso, capaz de mover montanhas com a força do teu olhar. Encontrei-te aqui, neste jardim, onde não pertences, o teu lugar é longe daqui, é naquele outro onde a felicidade se distribui em pacotes de guloseimas.
Leva-me daqui. Afasta-me deste mundo que me quer roubar o sorriso e quer colocar uma pedra no meu eu mais profundo, onde só o amor pode viver. Liberta-me deste sentido sem existência e transporta-me para o teu universo, onde acredito no impossível, onde o possível é estar ao teu lado.
Ag
ora que sorrio, que vivo com as cores da felicidade dentro de mim, relembro aqueles rostos e volto lá, não para os observar de novo, isso era suicido, mas para os libertar daquela apatia, devolver-lhes a vida que perderam algures e oferecer-lhes o meu sorriso de apoio.Um gesto simples, mas crucial para o despertar desta gente. Acredita, meu anjo, um gesto possível porque, naquele jardim, encontrei-te e corri para ti, porque abriste os braços e recebeste toda a minha alma. Agora sorrio e ofereço sorrisos, por ti e para ti.
Vives e deixas-me viver a mim, dependo de ti, e só assim, poderei ajudar quem ainda vagueia perdido, perdido no local onde o tudo é nada, e onde o nada se transforma agora em tudo.
Chegaste até mim e a minha vida mudou. Dois destinos paralelos se cruzaram, duas vidas se uniram na ilusão, resta o futuro de um sonho e a vida num cenário de imaginação, possível na mente, inverosímel na acção.

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