O herói improvável
O assunto da semana, neste rectângulo à beira-mar plantado, aconteceu na Quinta-feira, quando a PJ invadiu a redacção do jornal "24 Horas", para apreender um computador (que ridículo), que aparentemente continha informações sobre o famoso "Envelope 9", acerca das escutas feitas a personalidades, referente ao "caso Casa Pia".
Vamos ser sinceros: o "24 Horas" é um pasquim, com notícias de primeira página que não lembram nem ao Diabo (o de ontem foi imperdývel, sobre o motorista do carro que transportou o féretro da Irmã Lúcia a Fátima), sobre assuntos do "arco-da-velha", e mete assuntos de frivolidades nas primeiras pýginas (parece que estamos a ler o jornal ao contrário), com tipas cujo QI total é inferior ao do Albert Einstein a dormir. Claro, o jornal tem trunfos imbatíveis: É o mais barato do mercado (55 cêntimos, o equivalente a uma bica), pode-se ler em 20 minutos, ou seja, o tempo em que leva de casa para o trabalho, pelo menos para quem apanha os transportes públicos, e o estilo é popular: apela ao Zé Povinho que há dentro de nós. Tanto o mais que, quando o assunto é contas, ainda o faz nos antigos contos!
Agora recentemente, o jornal comprou uma guerra: quando eles mostraram o conteúdo do "Envelope 9", o procurador Souto Moura afirmou categoricamente que o jornal estava a mentir. Eles responderam durante dias, com a seguinte frase: "A mentira é sua, Sr. Procurador", numa atitude ousada, típica de aqueles que não viram a cara à luta. Quando o assunto ameaçava adormecer por falta de novidades, eis que, na passada quarta-feira, a Procuradoria ataca: munido de um mandato, a Policia Judiciária entra pela redacção do "24 Horas", afirmando alto e em bom som: "Tirem as mýos dos teclados!". E lá foram eles, a mostrar todo aquele aparato, só para levar um computador!
No dia seguinte, a resposta do jornal: "Nada na manga, Sr. Procurador!", e a fotografia de todo o pessoal da redaccão, de braços no ar, com as mãos bem abertas, quais "Mãos Limpas" a mostrar ao seu público que eram mais vítimas que réus. E claro, toda a classe jornalística a solidarizar-se com o jornal.
É como aquela frase do Voltaire: "Posso não concordar com aquilo que escreve, mas irei defendê-lo até à morte". Foi assim com pessoas que, noutra circunstância, não mexeriam uma palha por eles. Mas quando o assunto toca a todos, é a Procuradoria-Geral e Souto Moura que ficam com o papel do "mau da fita". No fim, como disse ontem Miguel Gaspar na sua coluna no DN: "Pedro Tadeu é o herói da semana. Mesmo a elite blogosférica tirou o chapéu ao mais assumidamente tablýide dos diýrios portugueses." Mas o artigo também mostra outra coisa: onde se situam as fronteiras entre o espaço público e o espaço privado?
Mais uma vez, Miguel Gaspar: "As fronteiras entre tablóide e referência não são vãs e continuam a fazer sentido. Mas o mundo dos jornais não é estanque. E acompanha a mudança de uma outra fronteira, a que separa a coisa privada da coisa pública. O domínio do privado tornou-se público e, ao mesmo tempo, o domínio do público tornou-se privado."
Quem diria, hein?


