quarta-feira, setembro 13, 2006

Artesanato: património intemporal de outros costumes

Heranças seculares da arte do povo

O concelho do Sabugal é rico em vestígios de épocas passadas. Além do património arquitectónico e paisagístico, o artesanato e o coleccionismo funcionam como registos de memórias e vivências passadas. A arte, a sabedoria e a criatividade dão forma a peças únicas, laboriosamente produzidas por mãos que não escondem a dureza do ferro e da madeira, mas que dão vida a peças singulares.

Vera Santos Sabugal

Nas mãos de quem conhece as dificuldades e amarguras da vida nasce uma nova forma a cada instante, floresce uma escultura em ferro que espelha o pensamento e a alma de quem a idealiza.
Desde a herança genética que Fernando Monteiro Fernandes, residente na aldeia do Soito, no concelho da Sabugal, conhece a utilidade do ferro. Os avós e os pais manobravam esta matéria-prima, não em forma de arte, mas na produção de utensílios agrícolas, indispensáveis à actividade agrícola, muito comum na região.
Noutros tempos eram vários os ferreiros do Soito, actualmente só ficou este artesão a trabalhar este metal. Desde os tempos primitivos que o ferro é uma das matérias-primas mais comuns do concelho e uma presença na aldeia do Soito.
Se o metal comunga de várias gerações de Fernando Monteiro Fernandes, a arte manufacturada foi descoberta de forma singular e é encarada como uma vocação própria, “aprendi esta arte sozinho, mas as bases vieram do meu pai. Mas eu sou um autodidacta, o trabalho que eles faziam eu também o faço, mas como já não há essa necessidade, agora na agricultura é tudo mecanizado, já não é precisa essa ferramenta toda, tive que me virar para a arte”, refere o artesão.
Fernando adianta ainda que “dentro do ferro faço tudo, basta pedirem que eu faço, mas por uma questão de sobrevivência, comecei a fazer artesanato, dentro daquilo que é mais utilitário.
No começo era assim, fazia candeeiros, peças para casa, agora faço arte, peças únicas, embora algumas além de decorativas também sejam utilitárias”.
Num espaço que respira décadas de existência e onde não se distingue uma única máquina, apenas as paredes irregulares de pedra e barro e a caldeira onde as brasas queimam o metal, permanecem do passado.
Os desperdícios de ferro e várias ferramentas já gastas que membros de etnia cigana iam ao Soito comprar, foram a semente da rotina artística. Cedo Fernando “Mejinha”, como é conhecido no concelho, percebeu que devia aproveitar esse material para forjar, já que o dinheiro dessa venda era irrisório.
Deste pensamento nasceu um artista, alguém que consegue atribuir um valor inestimável ao ferro e nele projecta as ilusões e os contornos de uma imagem.

“Todo o tipo de arte só funciona se for visto pelas pessoas”

Na viagem pelo espaço que serve simultaneamente de oficina e museu, Fernando Monteiro Marques guia-nos por um universo que só ele conhece. Entre várias esculturas são contadas histórias e relembrados momentos.
“Para mim a arte não tem forma, ela é visualizada mentalmente, só quando a estou a produzir é que ela começa a ganhar forma física”, descreve o artesão e quando o questionamos sobre a familiaridade da forma que molda com a imagem mental que tem dessa mesma forma, responde de forma clara, “a perfeição não existe, às vezes é possível que a peça não saia perfeita, não porque não consiga, mas porque isso implica que demore mais dias e assim fique mais cara, porque desta forma haverá um maior investimento. Quanto mais tempo demoro a acabar uma peça, mais cara ela fica, por isso não faço muitas obras grandes, é preciso investir muito tempo e dinheiro”.
Archotes medievais, troncos de árvores, perfis, estatuetas, formas irregulares, aves, quadros, um sol, o busto de Fernando Pessoa, figuras religiosas e ícones de várias profissões, um sem número de peças artísticas e singulares.
Várias obras adquirem frágeis laços de realidade, são a encarnação física de pensamentos, ideias e imagens, dificilmente identificáveis, no entanto, “quanto mais loucas são as minhas peças, mais depressa são vendidas. As pessoas procuram coisas originais e diferentes”, alega o mestre dos ferreiros artesanais.
A inspiração surge da observação do quotidiano e da projecção de ideias, “há dias em que a obra nasce logo porque na minha mente já cá está a fotografia. Aquele momento em que uma pessoa se entrega à obra, ela nasce, depois só preciso de acertar os pormenores para ela ficar mais perfeita”, sublinha Fernando.
Embora o ferro seja o material mais usado e a marca pessoal do artista que assina “FMF”, a madeira e a pedra são outras das matérias-primas combinadas com requinte e imaginação.
A dedicação e a entrega são totais, refere o artesão, “as minhas peças não têm horas, dias, têm o meu tempo e a minha alma, tenho aí peças que demoraram vários anos a acabar”.

O artesanato está na moda, mas as dificuldades mantêm-se

Hoje em dia a arte artesanal é um símbolo de tradição, bom gosto e combina na perfeição com a decoração moderna. De acordo com várias pessoas com quem nos fomos cruzando na aldeia, “o que é antigo agora está na moda”.
Em feiras de artesanato e sobretudo com a visita de muitos turistas, especialmente os estrangeiros, a procura deste tipo de arte tem aumentado. “As pessoas procuram tudo ou nada e levam algo que gostam e admiram. Por vezes o que vem ao meu encontro não é o dinheiro mas o bom gosto das pessoas, elas vêem e depois compram, por isso é que eu tenho de fazer as obras para expor porque se eu tiver aqui à espera que as pessoas apareçam para encomendarem alguma coisa eu não faço nada”, lamenta Fernando Monteiro Fernandes.
Enquanto que a grande maioria dos poucos artesãos do Distrito dedicam-se à arte como passatempo e entretenimento pessoal, Fernando recorre à habilidade profissional e artística das suas mãos para sobreviver e manter financeiramente a família.
“A procura depende apenas da divulgação, quando apareço na comunicação social ela aumenta, mas depois isto morre outra vez. De vez em quando cá aparece algum turista na procura daquilo que é típico”, esta é a realidade do único ferreiro da aldeia, um problema que podia ser minimizado, segundo Fernando Monteiro Fernandes, se “o Sabugal tivesse um museu a tempo inteiro, as pessoas iam vendo e até compravam, mas não, eu tenho que as expor num bar, como fazia antigamente, aí eu vendi tudo o que para lá levei porque as pessoas vêem, gostam e compram”.
Uma solução que, para já, permanece apenas no pensamento de quem sente o peso da interioridade e da desertificação.

Falta de apoios é uma barreira à continuidade do artesanato

Para mostrar ao mundo as capacidades deste artista singular, com um dom comparável aos grandes mestres, Fernando Monteiro Fernandes já participou em algumas feiras de artesanato local, a título individual.
Abriu por diversas vezes as portas da sua oficina aos olhares mais atentos e mantém religiosamente o museu improvisado, onde passa a maior parte dos seus dias, recebendo apenas a claridade exterior e os raios de sol para iluminarem o percurso frenético das suas mãos.
“Gosto de trabalhar o material, de fazer obras, é assim que me sinto bem. É a minha vida e a minha força de vontade, a minha entrega total, que tem feito de mim um artesão reconhecido aqui na zona, fico contente quando as pessoas gostam e admiram o meu trabalho”, afirma Fernando, contudo, lamenta profundamente que esta actividade não seja apoiada pelas entidades.
Num discurso melancólico e resignado, Fernando acredita que a falta de financiamento ou qualquer outro tipo de ajudas muito tem contribuído para a delapidação crescente do artesanato local, “os artistas aqui do interior não têm visibilidade nenhuma, ninguém os ajuda.
Sempre que é preciso fazer alguma coisa para uma rotunda ou coisa do género vão buscar os de fora para fazer, em vez de ajudarem os da terra. Sim, porque eu também sou bem capaz de fazer esses trabalhos em grande escala, basta que me dêem o suporte necessário”, sustenta o artesão.
O inconformismo espelha-se no olhar de quem sente que podia ir mais longe, mas a quem não são oferecidas as condições ideais para crescer. Certificado pelo IEFP como artesão qualificado, o diploma serve apenas para aquecer a pedra fria e escura, não tem qualquer validade porque não é reconhecido o seu mérito.
Confessa-nos que se sente ignorado, pois “quando nos convidam para os colóquios, pedem-nos para expormos as nossas ideias, sugestões, para referirmos os nosso problemas, no entanto, depois ninguém nos ajuda. Vão para lá muitos que já são reformados, que fazem isto por prazer e para ocuparem o tempo, para esses está sempre tudo bem porque já não precisam, mas nestas condições o artesanato vai acabar por desaparecer.
Nós sozinhos não sobrevivemos muito tempo e depois vou às feiras e vejo placas a dizer artesanato quando na verdade são peças fabricadas nas fábricas. É uma fraude e as pessoas compram ‘gato por lebre’ porque não sabem”.
Fernando acredita apenas no valor do seu trabalho para perpetuar na simplicidade do ferro a magia e a beleza das formas que depressa adquirem o estatuto de arte.

A madeira ganha vida na mão do artista

A tradição raiana do forcão e da tourada tem inspirado muitos artistas do Distrito. No Soito, uma típica aldeia do Concelho do Sabugal, o mestre da madeira construiu uma réplica mecanizada de todo o espectáculo tauromáquico.
Na arena reúnem-se os bandarilheiros, o grupo de pessoas que pega no forcão, representa ainda a tourada, o picadeiro e inclusivamente os acidentes prováveis de quem, destemido, enfrenta um touro. Uma representação fiel, acompanhado de uma aula sobre as capeias, tão características desta região raiana. “Aqui há muita gente que faz réplicas do forcão, eu sempre tive vontade de fazer um, mas fazer uma coisa diferente. Foi assim que me lembrei de fazer este mecanizado”, refere José Oliveira, que orgulhosamente nos explica toda a engrenagem montada para dar vida aos bonecos de madeira. Nem o passo double, a música típica que acompanha a tourada, escapa a esta reprodução fiel das tradições tauromáquicas.
“Agora quero terminar de fazer as bancadas e depois fazer também uma cobertura circular para ficar mais autêntica”, sublinha o artista, “até já me ofereceram mil euros para emprestar esta peça para uma feira, só por dois dias, mas não aceitei”, acrescenta com ar triunfante.

Uma arte que nasce do acaso


José Oliveira, que anos atrás, graças aos netos, descobriu a paixão pelo artesanato, fala-nos com entusiasmo do início desta aventura, em jeito de história de embalar os mais novos, recorda-nos esses momentos. “Estava em Lisboa, com os meus netos, e eles pediram-me para lhes comprar um moinho, em vez de lho comprar, fui antes fazer-lhes um. Tentei fazer uma coisa engraçada. Eles gostaram muito”. Foi neste gesto de simplicidade e afecto que, há doze anos atrás, o gosto pela arte e a dedicação pelas construções em madeira aqueceu os dias de quem, já na reforma, procura utilidade.
A idade, já avançada, não é motivo para parar, muito menos para lhe roubar a imaginação e a boa disposição, pelo contrário, a produção artesanal vai preenchendo de cor e fantasia os dias passados ao som das serras.
Todas as obras em exposição resultam de meses de trabalho, não são apenas peças individuais, são antes conjuntos de várias miniaturas, todos eles mecanizados. Cada um deles, em particular, guarda um segredo, transmite uma ideia e perpetua uma recordação.
A viagem pelo museu particular começa na recriação do moinho, toda a actividade desde a ceifa até à moagem da farinha. A roda do moinho gira lá do topo da enorme pirâmide de madeira trabalhada.
O papagaio falador e a galinha dos ovos de ouro saltam à vista pelo lugar de destaque que ocupam. “Esta galinha é a única no mundo capaz de pôr cem ovos por dia. É verdade!”, diz com ar risonho José Oliveira. Ligado o automatismo, comprova-se essa proeza, abre e fecha o bico, bate as asas, levanta-se e senta-se e em cada ciclo coloca um ovo. “Esta galinha até já esteve na inauguração de uma loja e na rádio fizeram uma publicidade dedicada a ela, diziam que havia uma galinha a pôr cem ovos por dia, quem não acreditasse podia comprová-lo indo a um sítio, que era a loja. Foi um sucesso! E muitas pessoas foram lá mesmo ver”, comenta o proprietário desta recriação.
Viajar neste espaço é uma oportunidade para descobrir novas formas e atitudes, ironicamente, somos nós que nos sentimos observados por todas aquelas figurinhas de madeira que de repente ganham vida, luz e cor. É fácil deixarmo-nos envolver por este cenário e voltarmos à infância, quando ainda brincamos nas casinhas de bonecas.

A tradição sob a perspectiva de um observador

A madeira trabalhada é de várias origens, mas o processo é sempre o mesmo, “tenho que cozer a madeira para a destemperar, depois, no momento da concepção, tem que ser novamente temperada e moldada segundo as formas que tenho na minha mente. Claro que dá muito trabalho, mas gosto do que faço”, explica-nos José Oliveira. As roupas dos figurantes são todas elas costuradas pela esposa, coloridas, com diferentes padrões e com um ar caseiro, são um contributo precioso.
Na realidade e no quotidiano de outros tempos o artesão vai procurar inspiração. O fabrico do linho serviu de modelo para uma nova peça de arte, uma espécie de fábrica onde a recolha da matéria-prima até à produção final no tear das peças do enxoval ocupa cada uma das figuras em constante movimento, uma operação mecânica, ao ritmo monótono da produção artesanal.
Se esta é uma actividade exclusivamente feminina, ao lado já se ouvem os ecos de uma oficina de mecânica automóvel, vários figurantes de fato-macaco inspeccionam, pintam, compõem, arranjam e desmancham os carros. Nesta representação nem sequer faltam as bombas de gasolina ‘Mobil’ para abastecer os veículos.
No museu improvisado num espaço da garagem, outras histórias se cruzam com cada escultura em madeira que encontramos. “Já repararam nesta torre de menagem? Cuidado é que o canhão dispara”, brinca José Oliveira ao accionar o maquinismo desta estrutura, altiva e repleta de pormenores, como luzes vermelhas em cada canto da muralha, decorada e trabalhada com requinte.
Uma rampa de lançamento de aviões, um carrinho de bebés, o típico comboio sobre a linha e muitas outras figuras compõe o valioso espólio deste artesão.

Exposição em museu próprio pode estar para breve

Para não nos escapar nenhum pormenor, foi-nos chamada a atenção para um quadro exposto na parede, à saída, onde o mestre recordou com saudade uma magnífica representação de um pastor que guarda as ovelhas dentro de uma cerca, “esta peça foi vendida para o Centro Cultural de Nova Iorque, nos EUA. Já vendi peças para a França, Itália, Espanha e também para a Alemanha, mas agora estas aqui são para guardar, já não devo vender mais nada”, sublinha José Oliveira.
Todas estas personagens fictícias vão viver novas aventuras e laborar num espaço mais amplo. A Câmara Municipal do Sabugal cedeu parte das instalações de uma antiga unidade fabril do Soito, agora votada ao abandono, para que José Oliveira exponha as suas obras de arte a tempo inteiro.
Um local que só tem a ganhar com a vida activa e com a magia destas esculturas de madeira.
A experiência da vida presenteou José Oliveira com um dom inestimável, agora adultos e crianças podem desfrutar de uma arte artesanal que, com a jovialidade e carisma do artista, ganham beleza e graciosidade infinitas.